( Apontamento)
Os nossos conhecimentos começam com a experiência dos sentidos, isto é, com as sensações. Os objectos exteriores excitam nossos órgãos dos sentidos e assim vemos cores, sentimos os sabores e os odores, ouvimos os sons, sentimos a diferença entre o áspero e o liso, o quente e o frio, etc.
As sensações reúnem-se e formam uma percepção; ou seja, percebemos uma única coisa ou um único objecto que nos chegou por meio de várias e diferentes sensações. Assim, vejo uma cor vermelha e uma forma arredondada, aspiro um perfume adocicado, sinto a maciez e digo: "Percebo uma rosa". A "rosa" é o resultado da reunião de várias sensações diferentes num único objecto de percepção.
As percepções, por sua vez, combinam-se ou associam-se.
Princípios de associação de ideias:
1 - por semelhança - um rosto desenhado remete-nos para o rosto original;
2 - por contiguidade no espaço e no tempo - a lembrança de um comboio leva a pensar na estação, nos passageiros;
3 - por causalidade (causa e efeito) - a água fria posta ao lume (causa) faz ferver (efeito) que se lhe seguirá.
É na relação de causa e efeito que se baseiam os nossos raciocínios acerca dos factos. O nosso conhecimento dos factos restringe-se às impressões actuais e às recordações de impressões passadas. Uma vez que não dispomos de impressões relativas o que acontecerá no futuro, também não possuímos o conhecimento dos factos futuros.
A causa da associação das percepções é a repetição. Ou seja, pelo facto de algumas sensações se repetirem por semelhança, ou por se repetirem no mesmo espaço ou próximas umas das outras, ou, enfim, de tanto se repetirem sucessivamente no tempo, criamos o hábito de associá-las. Essas associações são as ideias.
As ideias, trazidas pela experiência, isto é, pela sensação, pela percepção e pelo hábito, são levadas à memória e, de lá, a razão apanha-as para formar os pensamentos.
A experiência escreve e grava no nosso espírito as ideias, e a razão irá associá-las, combiná-las ou separá-las, formando todos os nossos pensamentos. Por isso, David Hume (filósofo empirista) diz que a razão é o hábito de associar ideias, sejam elas por semelhança, ou sejam por diferença.
O exemplo mais importante (por causa das consequências futuras) oferecido por David Hume para mostrar como formamos hábitos racionais é o da origem do princípio da causalidade (razão suficiente).
A experiência mostra-me, todos os dias, que, se eu puser um líquido num recipiente e levar ao fogo, esse líquido ferverá, saindo do recipiente sob a forma de vapor. Se o recipiente estiver totalmente fechado e eu lhe retirar a, vou receber um bafo de vapor, como se o recipiente tivesse ficado pequeno para conter o líquido.
A experiência também me mostra, que em todo o tempo, que se eu puser um objecto sólido (um pedaço de vela, um pedaço de ferro) no calor do fogo, não só ele se derreterá, mas também passará a ocupar um espaço muito maior no interior do recipiente.
A experiência também repete constantemente para mim a possibilidade que tenho de retirar um objecto preso dentro de um outro, se eu aquecer este último, pois, aquecido, ele solta o que estava preso no seu interior, parecendo alargar-se e aumentar de tamanho.
Experiências desse tipo, à medida que vão se repetindo sempre da mesma maneira, vão criando em mim o hábito de associar o calor com certos factos.
Adquiro o hábito de perceber o calor e, em seguida, um facto igual ou semelhante a outros que já percebi inúmeras vezes. E isso leva-me a dizer: "O calor é a causa desses factos".
Como os factos são de aumento do volume ou da dimensão dos corpos submetidos ao calor, acabo por concluir que: "O calor é a causa da dilatação dos corpos" e também "A dilatação dos corpos é o efeito do calor".
David Hume, diz que assim nascem as ciências. As ciências são, portanto, hábito de associar ideias, em consequência das repetições da experiência.
Ao mostrar como se forma o princípio da causalidade, David Hume não está dizendo apenas que as ideias da razão se originam da experiência, mas afirma também que os próprios princípios da racionalidade são derivados da experiência.
A razão pretende, através dos seus princípios, dos seus procedimentos e das suas ideias, alcançar a realidade em nos seus aspectos universais e necessários.
A razão retende conhecer a realidade tal como ela é em si mesma, considerando que o que conhece vale como verdade para todos os tempos e lugares (universalidade) e indica como as coisas são e como não poderiam, de modo algum, ser de outra maneira (necessidade).
Ora, David Hume diz que é impossível tanto a universalidade quanto a necessidade pretendidas pela razão. Assim, o universal é apenas um nome ou uma palavra geral que usamos para nos referirmos à repetição de semelhanças percebidas e associadas. E o necessário é apenas o nome ou uma palavra geral que usamos para nos referirmos à repetição das percepções sucessivas no tempo.
O universal, o necessário, a causalidade são meros hábitos psíquicos.
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