(Apontamento)
Há diferentes tipos de ciência em função das diversas áreas da realidade e dos diferentes aspectos que procuramos conhecer. Podemos, no entanto, encontrar um conjunto de aspectos comuns às diversas ciências que permitem caracterizar o conhecimento científico.
Assim, o conhecimento científico caracteriza-se por ser:
1 - Uma construção racional;
2 - Uma análise metódica e objectiva dos fenómenos;
3 - Uma explicação operativa;
4 - Uma aproximação sucessiva à verdade;
5 - Uma explicação precisa e metódica.
Veja-se detalhadamente cada uma destas características apresentadas:
1 - Uma construção racional - em vez da observação mais ou menos superficial que a percepção vulgar nos dá dos fenómenos, tal como nos aparecem, o cientista tem de fazer uma interpretação lógico-racional dos dados, relacioná-los e integrá-los numa teoria. Esta integração é que vai explicar as suas causas ou razão de ser, isto é, dizer-nos porque razão os factos acontecem sempre assim, de acordo com uma determinada lei, e não de outro modo qualquer.
Assim, por exemplo, as afirmações "o peso de qualquer objecto depende do campo de gravitação" ou "a cor de um objecto depende da luz que ele reflecte", são científicas em virtude de estabelecerem relações (descobertas através de processos de pesquisa rigorosas) entre fenómenos aparentemente diversos e não relacionados.
Do mesmo modo, a temperatura só se torna um conceito científico quando já não é medida pela nossa pele, expressa numa avaliação subjectiva do tipo "está frio ou está quente", mas lida num termómetro e expressa numa quantidade: "18 graus centígrados".
Qual será a diferença?
É que quando é medida por um instrumento tem uma validade universal e já não varia de acordo com a sensibilidade térmica do sujeito que avalia. Na verdade, para conhecer cientificamente o Mundo não basta olhar e tomar nota do que acontece à nossa volta, adoptando-se uma atitude de passividade. Na Ciência é preciso descobrir até a partir do que está escondido, ou seja, é preciso interrogar metodicamente a Natureza.
Aquilo a que vulgarmente chamamos observação não é um acto passivo de abrir os olhos e anotar ou registar o que se vê. É, antes, um procedimento devidamente preparado e orientado para atingir determinadas finalidades previamente definidas. Esta preparação envolve instrumentos e técnicas rigorosas de registo das observações e, sobretudo, uma hipótese prévia (ainda que implícita) que oriente os investigadores no sentido de saberem o que observar, como observar e para quê observar.
O cientista parte sempre de um dado contexto histórico, isto é, adoptou uma determinada teoria e procura integrar e explicar os dados novos com base nela. Um quadro teórico, ou uma teoria, é um modelo explicativo de um determinado conjunto de fenómenos. A teoria da gravitação universal, por exemplo, é uma construção racional, isto é, um quadro explicativo ou uma "grelha" que permite explicar porque caem ou não os corpos e segundo que lei matemática - e foi sendo aperfeiçoada para se ajustar e traduzir melhor a realidade que quer definir, compreender e explicar.
2 - Uma análise metódica e objectiva dos fenómenos - na sua actividade de procura das leis a que obedece o funcionamento dos fenómenos, o cientista tem de definir um objecto específico de investigação e de apoiar-se num método rigoroso de exame desse objecto.
O método e o objecto são factores essenciais para que um corpo de conhecimentos possa ser considerado científico. O cientista tem de conjugar a capacidade intuitiva, criadora e organizadora do seu pensamento com o respeito pelos factos. É esta preocupação, simultaneamente inventiva, lógica e experimental, que dá valor e credibilidade aos resultados da Ciência.
3 - Uma explicação operativa - quando o cientista interroga a Natureza e a "obriga a responder" às suas perguntas, fá-lo de acordo com as condições que deve manter sob controlo, fazendo-as variar para poder observar os seus efeitos resultantes dessas variações. O conjunto de operações lógico-matemáticas e experimentais realizadas / ou a realizar deverá ser descrito com tal objectividade que possa ser repetido tantas vezes quantas as necessidades e por diferentes observadores, conduzindo sempre aos mesmos resultados teóricos. É que para compreender um facto - por que razão os corpos caem, por exemplo - é preciso analisá-lo, comparar os seus vários elementos e procurar as interacções existentes, criando uma teoria que é uma espécie de modelo (mecânico, físico ou matemático) que reproduz a realidade.
4 - Uma aproximação sucessiva à verdade - não podemos considerar uma teoria científica como sendo sempre expressão da verdade. As teorias são criações racionais humanas falíveis, apesar da preocupação de objectividade e de rigor. A verdade científica pode sempre ser posta em causa, exigindo revisão e correcções ou mesmo a sua substituição por outras teorias.
Na verdade, o conhecimento científico não progride somente por acumulação e alargamento do conhecimento. Também progride por correcções. Mais do que um conhecimento definitivo, rígido e fixo que se acumula indefinidamente, a Ciência é uma reconstrução dinâmica, com retroacções constantes, numa tentativa interminável para fazer desaparecer as fronteiras da incerteza.
5 - Uma explicação precisa e prática - a precisão e o rigor da Ciência resultam de um procedimento metódico e do uso de uma linguagem unívoca, destituída de toda a ambiguidade, uma linguagem técnica que define criteriosamente os conceitos usados e ou, de preferência, a linguagem matemática.
O rigor e a precisão da Ciência exigem uma linguagem exacta e inequívoca, usando palavras e conceitos claramente definíveis.
A matemática apresenta-se como a forma mais precisa de linguagem e independente de qualquer conotação afectiva ou subjectiva. De facto, a Matemática traduz quantitativamente as relações entre causas e efeitos e é, também, um modelo de raciocínio. Permite relacionar um enunciado com outro, retirar as várias consequências desse relacionamento, analisá-las, integrar e unificar todos os enunciados. É por isso que a Matemática é a linguagem por excelência da Ciência.
Em suma:
- Os conhecimentos acumulados durante a experiência quotidiana são superficiais, imprecisos e desconexos, mas úteis e necessários para a nossa adaptação à realidade.
- Para a compreensão da estrutura e dinâmica da realidade temos de construir outra forma de conhecimento - A Ciência - recorrendo a raciocínios e demonstrações organizados metódica e sistematicamente.
- O conhecimento científico procura compreender e estabelecer relações constantes e invariáveis entre os fenómenos de modo a poder explicar, compreender e prever o "funcionamento" da Natureza.
- Senso comum e Ciência são dois modos diferentes de conhecer, embora se possam referir à mesma realidade. O senso comum, de modo espontâneo e assistemático, também descobre factos e formula explicações, mas a Ciência acrescenta critério metodológico, rigor e maior capacidade preditiva.
- A Ciência pode caracterizar-se como: uma construção racional e técnica da realidade; uma análise metódica e objectiva dos fenómenos; uma explicação operativa e sistemática; uma aproximação sucessiva à estrutura do real; uma explicação precisa e prática.
Sem comentários:
Enviar um comentário