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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

CONDICIONANTES DA ACÇÃO HUMANA

Apontamento

CONDICIONANTES DA ACÇÃO HUMANA
- Será que o homem pode fazer tudo o que quer?

- Será que tudo nos é permitido?

- Será que não se pode fazer nada livremente?

- Será que o homem não passa de uma marioneta com ilusões de liberdade?

É nas situações particulares, que o homem tem experiência da liberdade. O homem concreto, identificável pelo nome e pelo rosto, vivencia situações, concretas também, e é nelas que sente o que é ser livre e se apercebe dos obstáculos que se opõem à realização daquilo que deseja.

Condicionantes físico-biológicas

Todo o homem é condicionado pela morfologia e fisiologia do seu próprio corpo.
Possuir um corpo saudável e vigoroso permite desenvolver actividades que um organismo frágil é incapaz de realizar. Todos sabemos, por exemplo, que as nossas capacidades de actuação divergem quando nos sentimos doentes, ou com saúde.

O corpo que possuímos, a integridade dos nossos órgãos internos, o equilíbrio do nosso sistema nervoso, o bom funcionamento do sistema glandular, na medida em que condicionam a energia psicossomática necessária para muitas das nossas actuações, são determinantes do modo como agimos e reagimos nas diferentes circunstâncias.
Toda esta estrutura físico-biológica depende de uma herança que nos foi geneticamente legada pelos nossos ancestrais.
A hereditariedade é, por princípio, uma condicionante básica das nossas possibilidades de acção.

Directamente ligadas à componente biológica do homem situam-se as motivações primárias que interferem também em todo o comportamento humano.

Na verdade, comer, descansar, dormir são actos que temos obrigatoriamente de realizar para preservarmos a nossa integridade orgânica. Para além disso, o grau de satisfação ou de insatisfação destas necessidades liga-se a condições fisiológicas que fazem variar as nossas actuações. E momentos existem em que a satisfação destas necessidades nos leva a condutas que efectuamos em detrimento de acções tidas como mais elevadas e essencialmente humanas. Deste modo, por mais altruísta que se seja, ocasiões se nos deparam em que a necessidade de preservar a vida se sobrepõe ao desejo de praticar acções de cariz humanitário.

Condicionantes histórico-culturais

A construção do ser humano decorre num ambiente social que exige a sujeição a um sistema de regras que norteiam o seu relacionamento com os semelhantes. Esta aferição dos modos individuais de reagir pelas normas e padrões sociais vigentes vai-se efectuando à medida que se desenrola o processo de socialização.
[Socialização: modo como o indivíduo se adapta aos diversos grupos em que se integra, o que implica a interiorização das normas sociais próprias de cada um desses grupos.]

É inegável que o homem reflecte as condições do meio social e histórico em que nasce e se desenvolve.
Assim, o homem do século XX tem de ser necessariamente diferente do homem do século VI, e ambos diferentes do homem pré-histórico.
As dissemelhanças observadas explicam-se pelos condicionalismos culturais das diferentes épocas.
De uma para outra, diferem não somente as relações sociais, como também as formas de aproveitamento da natureza, os recursos técnicos e científicos, os sistemas de valores, os conceitos de educação, etc. Por isso, quando queremos compreender, por exemplo, a personalidade e o trabalho de um cientista, de um filósofo, de um político ou de um artista, há que fazer o enquadramento histórico adequado.
Se, ao longo do tempo, a mentalidade do homem e a sua acção nos aparecem com características que trazem a marca do contexto cultural da época, também é certo que, numa mesma época, o modo de ser e de agir das pessoas acusa diferenças, explicáveis pelos diversos espaços culturais em que estão integradas.

A antropologia fornece-nos exemplos sugestivos, evidenciadores do facto de o homem trazer patente na sua personalidade o cunho indelével da cultura própria da sociedade em que se desenvolve. Tais exemplos mostram como os padrões culturais, exteriores e anteriores ao indivíduo, são capazes de actuar sobre ele, moldando-lhe o comportamento segundo formas que ele próprio não escolheu. Para além de serem exteriores, os padrões possuem carácter constrangente, pelo que somos obrigados a segui-los, sob pena de marginalização.

Em suma, todos nós conhecemos entraves quando, muitas vezes, pretendemos actuar. Alguns obstáculos situam-se em nós mesmos, enquanto outros provêm do exterior. É que os acontecimentos, o mundo natural e biológico, o espaço físico e social, o corpo, a hereditariedade, as opiniões alheias, as crenças, as escolhas já feitas, os hábitos e o nosso próprio inconsciente interferem grandemente como condicionadores da nossa actuação livre.

Exercícios práticos:

1. Porque é que não basta descrever um comportamento observável para descrever uma acção?

R: Porque existem comportamentos observáveis que não são acções, quer dizer, comportamentos que não são realizados de forma intencional.
Ex.s: nascer, espirrar, tossir, tropeçar numa pedra, desmaiar, adormecer etc.

2. Demonstra com base em dois exemplos que a motivação é mais abrangente do que a intenção da acção?
R: Ex. A Ana tem uma certa tendência ou motivação para cozinhar. A Ana pode ter várias intenções. Pode ter a intenção de ir fazer um bolo de coco, pode ter a intenção de fazer uma tarte de maçã, pode ter a intenção de grelhar um hambúrguer com cebola, pode ter a intenção de fazer um caldo de marisco,... Verifica-se através deste exemplo que a motivação é mais abrangente do que a intenção.
Ex. O Jaime tem uma certa tendência ou motivação para sair à noite ao fim de semana. O Jaime pode ter várias intenções. Pode ter a intenção de ir encontrar-se com alguns amigos ao clube recreativo da sua localidade, pode ter a intenção de ir até a um bar ouvir música ao vivo, pode ter a intenção de ir caminhar um pouco pela sua vila, pode ter a intenção de ir assistir a um jogo de andebol no pavilhão gimnodesportivo da sua localidade,... Verifica-se através deste exemplo que a motivação é mais abrangente do que a intenção.
3. Atenta nas duas seguintes situações:
3.1. Aponta o motivo, a intenção e a finalidade da acção do Paulo.
O Paulo tem uma certa motivação ou tendência para roubar. Paulo pretende assaltar um banco. A finalidade desta sua acção é a de obter dinheiro suficiente para que a sua irmã, que sofre de uma doença grave, seja tratada numa clínica especializada no estrangeiro.  

R: Nesta situação específica, mesmo sabendo-se que o Paulo tem já uma tendência para roubar, o motivo desta acção do Paulo é o mesmo da finalidade da sua acção, o de obter dinheiro suficiente de modo a garantir que a sua irmã possa ser tratada e recuperar da sua grave doença numa clínica especializada no estrangeiro. A intenção do Paulo é a de assaltar um banco.

3.2. Aponta o motivo, a intenção e a finalidade da acção da Ana.

A Ana tem uma certa motivação ou tendência para ajudar pessoas idosas nas mais diversas tarefas. Ana pretende se candidatar ao emprego num lar de misericórdia. Ana tem em vista garantir um emprego que esteja de acordo com o seu carácter e com os seus projectos futuros no âmbito dessa actividade profissional.

R: O motivo da Ana é a sua tendência desde miúda para ajudar as pessoas de mais idade nas mais diversas tarefas. (A Ana nunca chegou a conhecer os seus avós e pretende recuperar essa afectividade e aprendizagem perdida na sua infância). A intenção da Ana é a de candidatar-se a um emprego num lar de misericórdia. A finalidade da acção da Ana é a de garantir um emprego que esteja adequado à sua personalidade e que esteja de acordo com os futuros projectos nessa actividade profissional.


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