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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Características dos valores

Todo o homem possui a experiência dos valores, norteando por eles a sua actividade.
Os valores conhecem-se, ou melhor, experimentam-se, vivem-se na prática. Conhecê-los não é possuir deles uma imagem definida, mas antes intui-los, descobri-los, estimá-los como algo de valioso para nós.
Este acto de estimar ou avaliar, que é no que consiste, essencialmente, a apreensão dos valores, é uma constante em toda a actividade humana e, apesar disso, torna-se impossível uma definição objectiva de valores.

Quando muito, podemos detectar algumas das suas características mais significativas, como tentativa de compreensão deste universo tão complexo e tão fascinante como é o universo dos valores.

Pensamos nas características dos valores:
 
1 - Os valores não são coisas

Vulgarmente, aplica-se o termo valor a propósito de objectos materiais que eventualmente alguém possua ou venha a adquirir.
Deste modo, uma jorra, um relógio, uma casa, um automóvel, um livro, uma quantia em dinheiro são valores, sendo aquele que os possui detentor de um certo número de bens.
A ser assim, os valores seriam tomados como coisas que se têm e que valeriam por si mesmas.
Porém, sabemos já que o significado de valor ultrapassa esta interpretação substancialista. Assim, um relógio não é um valor, mas um objecto o que se atribui valor por ser bonito, por ser útil, por ser caro ou por ser uma recordação de família.

2 - Os valores não são qualidades sensíveis das coisas

Se os valores não são coisas, também não são as qualidades das mesmas.
Assim, uma jorra pode ser de porcelana, de cor azul, pintada à mão com filetes dourados e com rosas vermelhas e malmequeres brancos desenhados na frente. Pode ter uma asa de cada lado que do bordo superior se estende até à base. Pode, por hipótese, medir vinte e cinco centímetros de altura e o seu perímetro circular maior ser de meio metro. Pode ser assinada e ter uma marca que a identifica como fabricada em Limoges, por exemplo.
Tudo isto podemos ver e todos estaremos de acordo quanto a estas características, podendo até comprovar as medições.

Porém, uns achá-la-ão bonita, outros feia. Uns gostariam de a possuir, outros não se importariam de a ter, outros despachá-la-iam a qualquer preço, ou escondê-la-iam no canto mais escuro do sótão.
Coloca-se a questão: Que é o belo? Que é o feio? Serão qualidades da jorra?
Se uma criança tortura um animal, “vemos” a crueldade desse acto e se assistimos a um bailado “vemos” a graciosidade da bailarina e “ouvimos” a harmonia da música. Mas em nenhum dos casos se trata de uma percepção sensorial, mas de “ver” e “ouvir” com os olhos e ouvidos do espírito.

Porque é que não percepcionamos a crueldade, a graciosidade e a harmonia? Estarão nos actos ou residirão em nós?
Todos sabemos que não há unanimidade quanto ao valor das coisas e dos actos, pelo que é licito que nos interroguemos se a existência do valor se situa no objecto ou se será meramente conferido pelas estruturas do sujeito.

3 - Os valores não são ideias

Números inteiros, infinito, recto, pentágono, relação, probabilidade são exemplos de ideias que nós concebemos e o que as pessoas têm acesso por via intelectual. Trata-se de entidades que todos podemos definir com objectividade na medida em que estamos de acordo com aquilo que significam.
Mas os valores não são ideias e não se captam por via intelectual, mas por via essencialmente emotiva.

Lotze, filósofo alemão, insiste em separar o campo das ideias do campo dos valores, salientando que apreendemos os primeiros pela inteligência enquanto os valores se captam por uma particular forma de sentir espiritual. Diz-nos este pensador que “os valores não são, os valores valem.”
Esta visão descoisificada dos valores não significa, contudo, que eles se nos apresentem num mundo alheio aos objectos e às situações reais. Os valores não se intuem desligados das coisas, pois que o acto de os estimar exige a presença dos objectos ou dos actos em que se consubstanciam.
Apesar disso, os valores não se identificam com esses objectos ou acções nem se reduzem o eles.

Quer isto dizer que os valores consistem em meros indices que determinam as nossas preferências e as nossas rejeições.

4 - Os valores são bipolares

Todos nos sentimos atraídos pelo bem, pela verdade, pelo amor, pela justiça. Estes termos referem-se a valores que encontram o seu contrário no mal, na falsidade, no ódio e na injustiça.
Os primeiros valores são valores positivos, os segundos são valores negativos a que também se costuma chamar desvalores.
A bipolaridade é a propriedade que apresentam os valores de existirem sempre em pares opostos, existe uma polaridade.

5 - Os valores são hierarquizáveis

Cada sujeito, nas mais diversas circunstâncias, conduz-se por uma escala hierarquizada de valores que o leva pessoalmente a preferir isto àquilo, a realizar este acto em vez daquele.

Como se hierarquizam os valores? (como é a sua construção por ordem de preferências de quem os selecciona?)

Sempre que tem de deliberar, o sujeito não se encontra perante uma, mas várias ordens de valores. Tem então, antes de agir, de se decidir relativamente ao que quer fazer. Terá de escolher, por exemplo, entre o prazer sensível, a realização espiritual, o lucro, a valorização profissional, a justiça, etc..
Uma vez decidida a acção, ela terá implícita, prioritariamente, uma dimensão económica, estética, política, ética ou religiosa que lhe é conferida pela ordem de valores preferidos.

Deste modo, os valores apresentam-se-nos com valências diferentes, o que permite colocá-los numa escala hierarquizada de preferências.

A hierarquia é, pois, uma propriedade dos valores segundo a qual se subordinam uns aos outros, em função de caracteres de valiosidade que cada um manifesta para nós.

Cada pessoa estabelece a sua própria escala de valores.
Isso significa que os valores estão na dependência do sujeito que tem a possibilidade de os colocar hierarquicamente para regulamentar a sua acção. Para além disso, significa que o sujeito é responsável pelas opções tomadas.

Esta posição subjectivista que confere liberdade ao sujeito não defende, contudo, a anarquia da sua conduta, nem legitima qualquer escolha de valores à margem de critérios.

6 - Os valores são diferenciáveis

Não correspondendo a algo de material ou de racional, podemos afirmar que os valores são vazios, conquanto as expressões verbais da nossa linguagem lhes confira uma aparente substancialização.
Dai ser possível compreender que em cada ordem de valores haja, por assim dizer, um conteúdo próprio que faz com que não confundamos, por exemplo, o amor com a prudência, a bondade com o poder, a ordem com o lucro.

Quanto ao conteúdo, os valores podem ser sensíveis ou espirituais.

a) - Nos valores sensíveis podem incluir-se todos aqueles cuja obtenção provoca o prazer físico. Este encontra, como é óbvio, o seu correspondente de carácter negativo na dor.

Todos procuramos a saúde e o vigor físico, tentando evitar a doença e a debilidade. Com vista a tais objectivos, praticamos desporto, fazemos uma alimentação equilibrada, afastamo-nos de fontes poluentes, etc..

b) - Nos valores espirituais refere-se ao prazer espiritual, resultante das acções do homem enquanto entidade dotada de razão e de sensibilidade.
A prossecução deste tipo de valores encaminha o homem para a realização de actividades éticas, estéticas e religiosas.

7 - Valor meio e valor-fim

Dado que toda a acção humana é orientada por valores, qualquer reflexão sobre a acção terá necessariamente que recair sobre aqueles. São os valores que, afinal, retiram aos nossos actos o carácter de gratuitidade, pois que são eles que os intensificam, orientam e lhes conferem sentido.
Não te esqueças que a relação entre acção humana e valor não é unívoca.

Que é que isto quer dizer? Recorramos a alguns exemplos para que se entenda melhor:

O indivíduo que despende parte considerável dos seus haveres na compra de obras de arte pode fazê-lo por imperativos de ordem estética ou, diferentemente, por pensar que está a realizar um óptimo investimento de capitais.
No primeiro caso, a aquisição de obras de arte possui valor por si mesmo, pois que o objectivo visado reside na própria actuação.

No segundo caso, a finalidade não reside no prazer estético e o que o indivíduo pretende é o lucro. Os seus actos, que à primeira vista parecem manifestar uma dimensão estética, não visam mais do que valores de ordem económica.
Também uma quantia de dinheiro oferecida, por exemplo, a uma instituição desportiva pode significar gosto e interesse pelo desporto ou, diferentemente, uma forma de granjear prestigio social.

Os valores em si mesmo (valores fins) e valores instrumentais (valores meios).

Relembrando e consolidando pontos fortes:

Os valores:

1 - São guias de acção

"Os valores são aquilo que costuma pôr em movimento a conduta e o comportamento das pessoas; orientam a vida e marcam a personalidade". - Garcia Mariño

"Os valores são preferências pelas quais orientamos o nosso comportamento e critérios pelos quais julgamos". - Hodgkinson

2 - Os valores são ideais e projectos

"Os valores são projectos ideais para o comportamento e para o existir" - Adela Garzón e Jorge Garcés

"O valor apresenta-se como um ideal, a um fim, um objectivo; sob certos aspectos, é "exterior às pessoas - sobretudo no aspecto colectivo - na medida em que consiste num estímulo que pode ou deve mesmo afectar a motivação das pessoas". - Guy Rocher

3 - Os valores são crenças que se traduzem em atitudes

"Os valores são um tipo de crenças que prescrevem o comportamento humano". - Rokead

4 - Os valores são opções

"Valores são opções entre diversas maneiras de actuar que são manifestações da hierarquização do mundo de um sujeito individual ou de uma colectividade". - Parson e kluchhohn

"Valores são características da acção humana, enquanto esta pressupõe a eleição de determinadas opções entre um conjunto de dilemas que configuram a existência humana". - Parson

--- Ordem ideal - Aquilo que existe como uma ideia, finalidade e objectivo. Aquilo que se apresenta como uma realidade a construir ou alcançar. Tudo aquilo a que conferimos uma "realidade" superior e, por isso, desajustável.

PS. E para ti qual a importância dos valores? Como povoam os valores a tua vida?


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